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Aliança em desgaste: Arábia Saudita barra operação de Trump no Estreito de Ormuz ao negar uso de bases e espaço aéreo

Decisão de Mohammad bin Salman de negar bases e espaço aéreo aos EUA levou Washington a suspender missão naval e expôs divergências sobre a guerra contra o Irã

Aliança em desgaste: Arábia Saudita barra operação de Trump no Estreito de Ormuz ao negar uso de bases e espaço aéreo
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A decisão da Arábia Saudita de negar aos Estados Unidos o uso de seu espaço aéreo e de bases militares no país levou o presidente americano, Donald Trump, a interromper o “Projeto Liberdade”, operação naval criada para ajudar embarcações presas há semanas — e, em alguns casos, meses — no Estreito de Ormuz a deixarem a região. O episódio expôs um raro atrito entre Washington e um de seus aliados históricos no Oriente Médio, e evidenciou a resistência saudita a uma nova escalada militar contra o Irã.

Anunciada por Trump no domingo, a operação previa apoio militar americano a petroleiros e navios comerciais bloqueados no estreito após ataques iranianos em resposta à ofensiva conduzida por EUA e Israel desde fevereiro. Sem acesso às bases sauditas e ao espaço aéreo do Golfo, porém, o plano se tornou inviável, já que exigia apoio de caças, helicópteros de ataque, aviões de reabastecimento e cobertura aérea constante.

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Segundo autoridades americanas e sauditas ouvidas pelo New York Times e pela NBC News, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammad bin Salman, comunicou diretamente a Trump que Riad não autorizaria o uso de território saudita na operação. De acordo com o Guardian, os sauditas também vetaram o uso da base aérea Prince Sultan, considerada estratégica para qualquer missão militar americana no Golfo.

Após uma série de telefonemas envolvendo Trump, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, genro do presidente, o republicano anunciou na terça-feira a suspensão do projeto, alegando "avanços" nas negociações com o Irã. Trump não mencionou publicamente a recusa saudita.

A decisão do príncipe herdeiro surpreendeu autoridades americanas e forçou Trump a abandonar o plano menos de 24 horas após lançá-lo, segundo o New York Times. A publicação afirma ainda que autoridades sauditas consideraram a operação insuficientemente planejada e temiam que ela provocasse uma escalada militar direta com Teerã.

Temor de nova escalada

De acordo com analistas e autoridades ouvidas pelo Guardian e pelo jornal israelense Haaretz, a Arábia Saudita avaliou que o "Projeto Liberdade" poderia levar diretamente à retomada da guerra no Golfo. O Irã já havia alertado que trataria escoltas militares americanas a petroleiros ou ataques contra embarcações iranianas como violação do cessar-fogo parcial firmado em abril.

Riad também temia virar alvo de novos ataques iranianos, cenário já vivido pelo reino em ofensivas anteriores contra estruturas da Aramco, a embaixada americana, a base aérea Prince Sultan e o campo petrolífero de Shaybah.

Segundo o Haaretz, autoridades sauditas concluíram que a operação era praticamente uma "fórmula certa" para a retomada da guerra. O jornal afirma que Riad receava sofrer ataques semelhantes aos lançados recentemente contra os Emirados Árabes Unidos, que vêm sendo um dos principais alvos iranianos no Golfo.

Ainda de acordo com a publicação israelense, a operação de resgate de cerca de 2 mil embarcações e 20 mil marinheiros poderia durar vários dias, período em que o Irã teria condições de continuar atacando alvos estratégicos no Golfo e espalhando minas marítimas na região.

Autoridades sauditas também demonstraram preocupação com a possibilidade de envolvimento dos houthis, no Iêmen, grupo aliado de Teerã, o que poderia ampliar o conflito para o Mar Vermelho e ameaçar rotas globais de petróleo. O fechamento do estreito de Bab el-Mandeb pelos houthis agravaria ainda mais os riscos ao abastecimento global de energia.

Nos bastidores, diplomatas sauditas passaram a demonstrar crescente frustração com a condução errática de Trump no conflito. Segundo o New York Times, autoridades em Riad avaliam que os objetivos estratégicos americanos permanecem pouco claros e sujeitos a mudanças repentinas, frequentemente surpreendendo aliados dos EUA na região.

Mudança na postura saudita

A crise também revelou uma mudança importante na postura saudita. Embora Mohammad bin Salman tenha defendido inicialmente uma ofensiva mais dura contra Teerã e apoiado ações mais agressivas contra o regime iraniano, segundo autoridades americanas, Riad passou nos últimos anos a priorizar estabilidade regional e negociações diplomáticas.

Segundo o New York Times, essa mudança reflete a estratégia saudita de transformar o país em um centro global de negócios e turismo, projeto que depende diretamente de estabilidade econômica e segurança regional. Analistas e autoridades sauditas ouvidos pelo jornal afirmam que uma guerra prolongada no Golfo ameaça diretamente esses objetivos.

Analistas ouvidos pelo Haaretz avaliam que os países do Golfo passaram a enxergar a continuidade da guerra como um risco não apenas militar, mas também econômico. Um conflito permanente poderia comprometer investimentos internacionais bilionários, afetar mercados de energia e provocar instabilidade regional ampla. Com isso, os sauditas passaram a atuar como uma espécie de limitador da estratégia americana na região, estabelecendo linhas vermelhas para qualquer escalada militar contra o Irã. O jornal israelense afirma ainda que Teerã pode interpretar a posição saudita como um sinal de que países do Golfo não estão dispostos a sustentar uma guerra prolongada.

A negativa saudita também tende a ampliar o poder de barganha iraniano nas negociações em andamento. Autoridades iranianas afirmaram nesta semana que Teerã e Washington discutem uma proposta temporária para reabrir o Estreito de Ormuz e interromper hostilidades por 30 dias enquanto tentam negociar um acordo mais amplo envolvendo o programa nuclear iraniano.

 

Flexibilização das restrições

 

Apesar da suspensão da operação, o Wall Street Journal informou nesta sexta-feira que a Arábia Saudita e o Kuwait

teriam restabelecido o acesso dos militares americanos a bases e espaço aéreo na região, abrindo caminho para uma eventual retomada do “Projeto Liberdade”. Segundo o jornal, autoridades americanas avaliam reiniciar a operação naval ainda nos próximos dias.

A informação, porém, ainda não foi confirmada oficialmente pelos governos saudita e kuwaitiano. A Casa Branca afirmou que nunca houve uma proibição formal ao uso das bases. O WSJ afirma que a flexibilização ocorreu após novas conversas entre Trump e Mohammad bin Salman, em meio à preocupação dos países do Golfo com a possibilidade de novos ataques iranianos à infraestrutura petrolífera da região.

Fonte/Créditos: O Globo

Créditos (Imagem de capa): O Globo

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