Tim Maia, assim como um de seus maiores sucessos, "não queria dinheiro e só queria amar", segundo o seu filho Carmelo Maia, detentor dos direitos autorais e de imagem do cantor, desde 1998.
Em entrevista ao gshow, o produtor e ator, que tinha 23 anos quando o pai faleceu, diz que poucos conheceram o "Tião Marmiteiro" na intimidade, e fala do musical "Tim Maia - Vale Tudo", em cartaz no Rio de Janeiro até abril. Durante um papo sincero, ele também homenageia o artista que completa 28 anos de morte neste dia 15 de março.
Carmelo garante que a nova adaptação do musical, interpretada pelo cantor baiano Thór Junior, é bem diferente da anterior, vivida por Tiago Abravanel, em 2011: “Me emociono muito, porque tem o encontro dele com a minha avó, comigo, o cuidado dele e a relação de pai e filho."
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O filho do astro não gosta quando escuta que o pai era "doidão" e faz questão de enaltecer seu lado humano: “Existe um contraste do Sebastião, um cara careta, muito paternal e carinhoso, do Tim Maia, que é um gênio."
Conhecendo o pai, Carmelo, chamado carinhosamente por Tim de Telmo, garante que, se ele pudesse assistir ao novo espetáculo, colocaria defeito. “Iria reclamar o tempo todo do som, ia falar talvez para Thór: 'Com todo respeito, você parece comigo, mas eu acho que você é um pouco mais gordo que eu'. No fundo, ele ia gostar", diverte-se.
Em uma conversa recheada de histórias inéditas, Carmelo imita a voz do pai por diversas vezes, interpretação que o pai não viu.
Veja a entrevista completa e fotos inéditas de momentos íntimos do atemporal Tim Maia, que partiu, mas deixou vários motivos para ficar para sempre na memória.
Como foi ver a história do seu pai retratada no palco do musical?
"Sou muito privilegiado, essas biografias fazem os artistas serem ressuscitados e você revive. Cada cena que eu vejo faz parte não só do artista, mas também do lado humano que era o Sebastião, meu pai. Então, em diversos momentos eu me emociono muito, porque tem o encontro dele com a minha avó, o encontro dele comigo, o cuidado dele, a relação de pai e filho."
"Esse musical é muito diferente do outro. Esse não é biográfico, apesar da gente respeitar toda a trajetória da sua biografia no tempo. É um recorte dos melhores momentos da vida do meu pai."
Qual o momento mais forte do seu pai que é retratado no musical?
"A última cena, a gente não remonta fidedignamente, porque a gente não ia colocar um CTI dentro de um teatro, mas é o último momento dele. Quando o meu pai vem a falecer, no dia 15 de março, uma semana antes, ele começou a passar mal. Três, quatro dias depois, a equipe médica precisava ver se ele tinha alguma lesão cerebral após parada cardiorrespiratória. Então, começaram a tirar os sedativos. Quando tiram os sedativos, ele começa a ficar lúcido e pergunta onde ele está. Então a primeira coisa que ele pergunta é: 'Cadê o meu filho Telmo?'".
"A última cena é exatamente o momento em que estou no hospital, com o meu pai, ele pega a minha mão, leva ao coração, sai uma lágrima, que eles chamam da melhora da morte, né? Fiquei angustiado e, três dias depois, ele veio a falecer. Então tem essa cena, que é o meu encontro com ele, ele se despedindo de mim, não teve no primeiro musical, nem no filme. É uma cena inédita."
Então o final é bem triste?
"Logo depois dessa passagem, vem a música'Você', 'Não não vá embora, vou morrer de saudade'... Aí você sabe que ele morreu. Aí o que a gente faz? A gente não permite que você chore, porque logo em seguida, já vem aquele medley de final de festa. Não dá tempo para chorar, é muito louco."
"Uma das preocupações da nossa produção era recriar toda a atmosfera do show, como se ele vivo estivesse, onde a pessoa mergulhe no universo Tim Maia. E acredite, cara, as pessoas vão pensar, eu fui, o Tim Maia veio, meu irmão."
O que mais te emociona é ele como pai, como filho?
"Sim, o que mais me emociona é o lado que vocês, imprensa, artistas e fãs não conhecem. É o lado humano, o Sebastião. Então, isso é uma grande novidade que a gente traz para esse musical, que ninguém sabe como é que ele era com a mãe."
E o que mais surpreende as pessoas?
"Sei lá, um cara que se emociona. Tim Maia era conhecido como doidão. Era um cara carente, um cara sensível, uma criança que esqueceu que cresceu. Uma mãe que trata aquele homem adulto, gordo, de uma experiência absurda, porque morou cinco anos nos Estados Unidos, foi preso. Então, ele vem com uma bagagem de vida já bem amadurecida. A mãe continua tratando como se ele tivesse 14 anos e ele tratando a minha avó como se fosse um filho ainda adolescente. Então, existem momentos que ele fala: 'Ô, mamãe, cadê meu almoço? Eu tô com fome!. Existe um contraste do Sebastião, um cara careta, um cara muito paternal, muito carinhoso, do Tim que é completamente doidão, um gênio."
“Meu pai nunca fez personagem, sempre foi o que ele é. O problema é você diferenciar quando começa e termina o Sebastião e quando começa e termina o Tim. Para os mais íntimos, ele não tinha nada de doidão. Doidão, talvez, na forma de escrever suas canções, na sua genialidade, porque aí é uma característica dos gênios. Não existe gênio careta.”
Como era o Tim com as mulheres?
"Era muito fácil, porque estavam vendo o Tim Maia, fogoso. Mas não era ele... Agora, para sair com o Sebastião ninguém queria. Então, tinham essas nuances, esses contrastes..."
“Consegue imaginar o Tim pedindo para você botar ele para dormir e ficar com ele? Ele dizia: 'Eu não gosto de ficar sozinho, por favor'. É quase uma súplica de um homem irreverente, um gênio indomável, mas que, ao mesmo tempo, parecia uma criança indefesa.”
E a relação do Tim com as drogas?
"É muito mais fácil você chamar ele de doidão do que reconhecer que ele padecia de diversos sintomas que talvez um psiquiatra poderia tratá-lo, mas ele não queria um psiquiatra."
"Ele sabia viver muito intensamente, era libertário, intenso em sua criatividade."
"Ele morreu e não tive nem direito ao luto. Entrei direto no estúdios para gravar o disco Soul Tim Maia (1999). E ali, para mim, era muito ruim porque meu pai tinha mania de gravar a voz dele inteira e ainda deixava a gravação rolando, então ficava a respiração dele."
Qual o maior legado que ele deixou para a música brasileira?
"O maior legado que ele deixou é a obra. Cada música dele, posso te garantir, tem uma trilha sonora da vida dele. Ele representa os desejos, as vontades, as loucuras de muita gente."
Como está o patrimônio do Tim?
"Sei que eu sou uma referência para muitos filhos de artistas, eles me procuram com dúvidas contratuais, diversas questões. Comecei a trabalhar com o meu pai vivo, já contava o borderô do Canecão (antiga casa de shows no Rio de Janeiro) e tinha 17 anos. Ele já confiava em mim. O termômetro para eu saber que o meu pai iria bem no show, eram as três primeiras canções."
"Tripliquei o patrimônio dele e aprendi a gerar a máquina chamada Tim Maia."
Fonte/Créditos: Gshow
Créditos (Imagem de capa): Gshow
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