A ostentação nas redes sociais, os carros de luxo, as viagens internacionais e a imagem pública de sucesso construída por Deolane Bezerra ajudaram a criar um "cenário fértil" para ocultar dinheiro do crime organizado e dar aparência de legalidade a recursos ilícitos atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC), aponta um relatório da Polícia Civil de São Paulo que levou à prisão da influenciadora na quinta-feira (21).
O inquérito sustenta que a exposição pública e o padrão de vida milionário de Deolane teriam servido, na prática, como uma espécie de blindagem para movimentações financeiras consideradas suspeitas pelos investigadores.
O relatório afirma que Deolane "empresta toda a sua estrutura financeira e aparente respeitabilidade social para o trânsito e integração de valores ilícitos".
Para os investigadores, o modelo de exposição adotado pela influenciadora normalizava transações milionárias, contexto que dificulta identificar quais recursos teriam origem em contratos, publicidade e negócios lícitos e quais poderiam estar relacionados ao esquema investigado.
A defesa de Deolane Bezerra nega as acusações e afirma que a influenciadora não integra organização criminosa nem praticou lavagem de dinheiro.
O advogado tributarista Marcelo John, do escritório Benedito Torres Advogados, destaca que, sob a perspectiva tributária e financeira, a tese levantada pelas autoridades é plausível:
"O mercado de publicidade que envolve influenciadores e pessoas públicas é extremamente volátil, de modo que é difícil estabelecer um parâmetro completamente seguro para definir quanto vale uma campanha publicitária. Essa circunstância pode permitir que contratos publicitários sejam utilizados como mecanismo para mascarar transações indevidas, já que valores muito elevados podem ser formalmente justificados sob a roupagem de uma única campanha, publicidade ou cessão de imagem".
Para ele, é necessário fazer o cruzamento de dados para rastrear a legalidade da transação. "A análise sobre a regularidade dessas movimentações financeiras não pode se limitar ao valor nominal movimentado. É necessário cruzar contratos, notas, informes de rendimento, declarações de imposto de renda, movimentação bancária, patrimônio adquirido e capacidade operacional das empresas e pessoas envolvidas", completou.
O criminalista Felipe Carrijo, do mesmo escritório, concorda que, sob a perspectiva criminal, o argumento das autoridades faz sentido como ponto de partida para uma investigação:
Mas o advogado pondera: "Isso não significa que fama, sucesso financeiro ou ostentação sejam indicativos de crime. Esses fatores podem justificar um olhar investigativo mais atento, mas não substituem a necessidade de prova. Não se pode presumir a ilicitude apenas porque alguém movimenta grandes quantias ou exibe elevado padrão de vida. O ponto central é verificar se existem elementos concretos que demonstrem a origem ilícita dos recursos e a prática de atos destinados a ocultar ou dissimular essa origem".
Como começou a investigação?
O material continha ordens internas do PCC, contatos de integrantes da facção e referências a ações violentas contra servidores públicos.
Segundo a investigação, os documentos apreendidos levaram à abertura de três inquéritos que permitiram mapear a estrutura financeira da organização criminosa.
Os investigadores afirmam que, a partir da análise dos manuscritos, chegaram a uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau, próxima ao complexo penitenciário da cidade, que seria usada como empresa de fachada para movimentar dinheiro da facção.
O que a polícia diz sobre o esquema?
Segundo o Ministério Público (MP) e a Polícia Civil, a transportadora fazia repasses para contas de terceiros para ocultar a origem do dinheiro do PCC. Duas dessas contas estariam em nome de Deolane.
A investigação aponta que parte das movimentações ocorria por meio de depósitos fracionados em espécie, saindo do caixa da facção e passando pela transportadora antes de chegar às contas ligadas à influenciadora.
Os investigadores afirmam que o esquema envolvia uma rede complexa de movimentações entre contas de pessoas físicas e jurídicas, numa etapa conhecida como “dissimulação”, usada para afastar o dinheiro de sua origem criminosa.
Segundo o delegado Edmar Caparroz, responsável pela investigação, o PCC utilizaria a projeção pública e o patrimônio de Deolane para dar aparência de legalidade aos recursos ilícitos.
“O crime organizado deposita os valores nessa figura pública, esse dinheiro acaba se misturando com o dinheiro de outras atividades, e quando precisa esses recursos retornam para o crime organizado”, afirmou o delegado.
Qual seria a ligação de Deolane com Marcola?
A Polícia Civil afirma que o principal elo entre Deolane e Marcola seria Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha do chefe do PCC,que mora em Madri, na Espanha.
Segundo a investigação, Deolane também manteria vínculos pessoais e comerciais com um dos gestores fantasmas da transportadora usada no esquema. Os investigadores afirmam ainda que não identificaram prestação de serviços compatível com os valores recebidos pela influenciadora.
Além de Marcola e Paloma, também foram alvos da operação:
- Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como operador financeiro da facção;
- Alejandro Camacho, irmão de Marcola;
- Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho do líder do PCC.
Por que Deolane foi presa preventivamente?
A Justiça decretou a prisão preventiva da influenciadora após apontar risco de fuga.
Segundo o processo, Deolane havia retornado ao Brasil na véspera da operação após passar semanas na Europa.
Os investigadores também destacaram que integrantes da família de Marcola haviam deixado o país durante as investigações — uma sobrinha foi para a Espanha e um sobrinho fugiu para a Bolívia.
O nome de Deolane chegou a ser incluído na Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo usado para alertar autoridades internacionais sobre procurados.
Deolane é investigada apenas nesse caso?
Não. Esta é a segunda prisão da influenciadora em menos de dois anos. Em 2025, ela já havia sido alvo de uma investigação da Polícia Civil de Pernambuco sobre lavagem de dinheiro relacionada a empresas de apostas online.
Segundo aquela investigação, Deolane teria investido mais de R$ 65 milhões em carros e imóveis de luxo usando recursos ligados ao setor de bets.
O que diz o relatório da polícia?
Em um dos trechos do inquérito obtido pela TV Globo, a Polícia Civil classifica Deolane como integrante do PCC. Segundo os investigadores, ela teria papel “central” na estrutura financeira da facção.
O documento afirma:
Quem é Deolane Bezerra?
Deolane Bezerra ganhou projeção nacional após a morte do marido, o funkeiro MC Kevin, em 2021. Depois disso, ampliou sua presença nas redes sociais, passou a participar de programas de TV e investiu em publicidade digital e apostas online.
Ela acumula mais de 21 milhões de seguidores no Instagram e costuma publicar conteúdos ostentando carros de luxo, viagens e mansões em Alphaville.
O filho adotivo da influenciadora, Giliard Vidal dos Santos, conhecido nas redes como "Chefinho", também foi alvo de busca e apreensão na operação. Segundo a polícia, ele aparecia frequentemente ostentando carros, joias, helicópteros e viagens internacionais nas redes sociais.
Fonte/Créditos: G1
Créditos (Imagem de capa): G1

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