O candidato do Missão à Presidência da República, Renan Santos, concedeu nesta quarta-feira (26) entrevista à Globo. Quem conduziu a entrevista foram os jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli.
Veja os principais destaques da entrevista com Renan Santos:
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Decisões do STF
O candidato respondeu sobre declarações anteriores em que disse que, se eleito, descumpriria decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que considerasse ilegais. Ele afirmou que não pretende desrespeitar todas as determinações da Corte.
“Qualquer cidadão, diante de uma decisão ilegal, pode não cumprir. Na verdade, ele tem um dever de não cumprir. Decisão ilegal não se cumpre. Se vier uma decisão ilegal que faça as pessoas correrem um risco muito grande, você não pode cumprir. Uma decisão ilegal pode acabar com a vida de uma pessoa”, afirmou.
Renan Santos afirmou que, se eleito, pretende fazer uma nova reforma da Previdência. O candidato disse que a medida será necessária para evitar o desequilíbrio das contas públicas e citou ainda cortes de gastos e investimentos em infraestrutura como parte de sua política econômica.
“Eu não sou estelionatário eleitoral como outros candidatos que vão vir aqui e falar que não precisa. Vamos precisar fazer outra reforma da Previdência. Vai quebrar em três anos, você não tem aposentadoria, tá? Vou deixar claro porque eu não sou populista fiscal”, afirmou.
Questionado sobre a promessa de cortar R$ 1 trilhão em gastos públicos caso eleito, Renan Santos afirmou que as medidas teriam como objetivo, no mínimo, estabilizar a trajetória da dívida. Segundo ele, isso seria feito com corte de gastos e crescimento do PIB.
O candidato também defendeu a desvinculação dos pisos de gastos com saúde e educação.
“Hoje esses gastos estão irracionais e estão quebrando pequenos municípios. Tem municípios do interior do Rio Grande do Sul em que a população envelheceu, não está nascendo gente. Então eles precisam de mais gastos com saúde e menos gastos com educação”, disse.
Ao ser questionado sobre declarações anteriores em que afirmou que o país deveria ter uma bomba atômica, o candidato à Presidência Renan Santos defendeu que o Brasil desenvolva armamento nuclear.
“Se o Brasil quiser ser uma das cinco maiores nações do mundo, que se presta a sentar na mesa com Estados Unidos, Índia, Rússia e China, ele vai precisar ter soberania, a soberania sobre o seu próprio território, soberania militar, e vai ter que discutir ter bombas atômicas”, disse o candidato.
Renan reconheceu, porém, que o Brasil não tem condições de desenvolver armas militares nos próximos dez anos.
O candidato acrescentou que não precisa de estudo científico ou técnico para defender que o Brasil desenvolva uma bomba atômica.
“Eu não preciso de um estudo científico para determinar que uma nação tem que ter força política para se proteger de outras nações. Eu posso trazer apenas dados da realidade. A realidade é muito clara: as nações mais poderosas do mundo dispõem de armas nucleares e elas se fazem respeitadas por causa disso”, afirmou.
O candidato também defendeu a saída do Brasil do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, a exemplo da Coreia do Norte, que foi o único país a tomar essa medida.
“[A Coreia do Norte] por mais que seja um regime que eu considero opressivo e que eu não respeite, pelo menos ele é respeitado internacionalmente. É uma forma de defender a sua própria soberania”, afirmou Renan.
“Se a gente quiser ser o eterno Zé Carioca no mundo [...], aceitamos nossa posição submissa. Agora, se a gente quiser ser uma nação séria e respeitada nos próximos 30 anos, nós precisamos ter armas nucleares.”
Renan foi questionado sobre a viabilidade do plano de combate ao crime organizado dele, que promete recuperar todas as áreas dominadas por facções no país em um ano.
Renan afirmou que o Brasil vive uma “guerra declarada unilateralmente” contra o crime organizado.
“Se você mora numa favela, o crime organizado manda em você, pode te desalojar da tua casa, pode eventualmente se interessar de maneira sexual pela tua filha e você não tem como se defender. A vida num país que está em guerra é uma vida triste. Hoje quase 40 milhões de brasileiros vivem direta ou indiretamente sob a influência do crime”, disse.
O candidato propõe, entre outras medidas, mudar a Lei de Execução Penal de forma a tratar o integrante de uma facção como um “ente anômalo”. Renan disse que não adianta fazer a prisão de um traficante que vai ser solto logo depois, e defendeu que a legislação em um eventual governo dele será dura.
R$ 6 bilhões para presídios
Ao tratar de segurança pública, o candidato do Missão afirmou que vai construir dez novos presídios federais para prender até 40 mil pessoas em cada um deles, caso eleito presidente.
Atualmente, o sistema penitenciário federal é composto por cinco unidades de segurança máxima que, juntas, somam 1.040 vagas -- destinadas a líderes de facções criminosas.
"Só na parte de presídio, R$ 6 bilhões nós precisamos fazer para abrir vagas e construir dez presídios, cada um de 30 mil a 40 mil vagas. O processo precisa se iniciar desde já", disse Renan Santos.
Renan Santos (Missão) afirmou que, se eleito, pretende adotar medidas semelhantes às implementadas em El Salvador na área de segurança pública. O candidato disse que pretende usar o estado de defesa em áreas dominadas pelo crime e estabelecer um “regime de exceção” em favelas.
“A ideia de enfrentamento usando um regime especial — aqui, o estado de defesa em áreas dominadas pelo crime — eu vou adotar. Vai ter um regime de exceção em favelas para eu retomar a favela”, afirmou.
Para justificar a inspiração em Bukele, Renan citou o caso de um homem morto ao tentar impedir um assalto em São Paulo.
“Eu acho que o sangue que tem que jorrar não é o dele. O sangue que tem que jorrar é o do bandido. Eu acho que as pessoas no Brasil [...] estão implorando para que a gente faça justiça contra essas figuras terríveis, esses demônios que estão matando a gente. E cabe ao presidente da República liderar as pessoas nessa guerra”, afirmou.
Renan Santos foi questionado sobre uma declaração de Orlando Lima, um dos principais colaboradores do plano de governo dele, a respeito do direito a voto.
Segundo Orlando, pessoas que não têm propriedade e que recebem auxílio do governo não são "cidadãos plenos". Para o colaborador do programa de Renan, essas pessoas só devem ter assegurados direitos básicos, o que não incluiria votar.
O candidato disse não concordar com a fala de Orlando, e que, se eleito, não restringiria o direito ao voto. “É só a opinião dele. Eu nem sabia da opinião, mas, se ele falou isso, é a opinião dele”, declarou. “A pessoa pode dar uma declaração infeliz e fazer uma pesquisa brilhante sobre história. Conheço grandes pesquisadores e grandes jornalistas que às vezes dão declarações ruins.”
Renan defendeu a participação de Lima na elaboração do Livro Amarelo, plano de governo do Missão.
“Foram mais de 200 pessoas que trabalharam na elaboração do livro, são pesquisadores ao redor do Brasil e de fora do Brasil que participaram desse projeto. O Orlando é um deles, é um dos mais importantes, mas isso não determina que uma declaração ruim dele vá interferir nesse processo que é colaborativo.”
Para Renan Santos, a falta de políticas específicas no plano de governo dele em relação ao combate a feminicídios se daria por um foco geral da campanha no combate ao crime organizado, e que, de forma extensiva, abrangeria violência contra mulheres e crianças.
"O combate a isso exige medidas específicas que são adotadas majoritariamente por municípios e estados, porque nós respeitamos o princípio federativo. [...] Quem tem que fazer a formulação das políticas públicas e das ações sobre feminicídio e violência contra crianças e violência como um todo, são os estados e municípios", disse.
Renan destacou que o plano de governo dele contém um "plano gerencial" que estabelece metas de desempenho para prefeitos e governadores, em que haveria medidas envolvendo o enfrentamento à violência contra a mulher. "Esses indicadores que vão ser montados pelo governo federal vão servir para você fiscalizar a atuação dos municípios."
"Não é o governo federal que tem o poder de polícia para executar isso. Se tem um marido que está batendo na sua esposa, não é o governo federal que vai colocar alguém dentro da casa dele", disse.
Comentário sobre ucranianas
Renan Santos comentou sobre o áudio gravado pelo aliado dele, o deputado estadual cassado Arthur do Val (Missão). Em viagem à Ucrânia durante a guerra com a Rússia, em 2022, Do Val afirmou que as ucranianas "são fáceis porque são pobres". Segundo Renan, foram "declarações ruins" de seu aliado e que ele, que estava presente na viagem, gostaria de ter evitado o envio do áudio em um grupo privado caso pudesse.
"O áudio é muito ruim. Se a pessoa ouve, mulher ou homem, mesmo, fica... 'Esse áudio não é adequado'. Dito isso, foi um áudio privado, num ambiente privado e ele perdeu o mandato dele", disse.
Maioria de homens no Missão
Ao ser questionado sobre o motivo pelo qual 92% dos filiados ao Missão são homens, proporção muito acima da média em comparação com as outras siglas brasileiras, Renan citou episódios de perseguição contra as mulheres eleitas pelo partido.
Segundo ele, a vereadora em São Paulo e atual coordenadora da campanha dele, Amanda Vettorazzo, foi alvo de um stalker que foi preso, vítima de deepfakes dela nua e teve familiares sequestrados.
Renan afirmou que as mulheres não entram em seu partido por medo. “A violência política de gênero que acontece contra pessoas, não só do nosso grupo político, mas em geral da direita, é muito maior do que se imagina”.
Desastres climáticos e infraestrutura
Renan foi questionado sobre a falta de políticas públicas no plano de governo dele voltadas para desastres climáticos. O candidato respondeu que essas medidas já existem nas metas de infraestrutura dos estados e municípios em “regiões problemáticas”.
O candidato citou como exemplo as enchentes do Rio Grande do Sul, dizendo que o estado já tinha todas as manutenções a serem feitas no seu sistema de comportas para evitar o que aconteceu com as chuvas.
“O problema é que não há dinheiro para investimento em infraestrutura. Os planos já existem! A coisa mais desesperadora é: os planos dos estados e municípios existem, não têm é o dinheiro”, disse.
De acordo com Renan, os recursos não foram direcionados porque o governo não consegue reduzir gastos obrigatórios e cortar despesas com “mamata de político e do Judiciário”, assim como não consegue fazer reformas impopulares.
Questionado sobre de onde buscaria o dinheiro para investir em infraestrutura, o candidato defendeu realizar reformas que devem economizar R$ 1,1 trilhão nos próximos 5 anos.
“Com essas reformas, vai começar a sobrar dinheiro e os juros vão baixar. Juros baixando, mais licenciamento ambiental que passou, [atrai] investimento. Investimento vai significar emprego, aumento da competitividade, e aí atender a esses problemas que são dramáticos.”
Renan Santos criticou a política externa adotada pelo governo Lula (PT) ao tratar de conflitos internacionais, como o embate de tarifas com os Estados Unidos. Segundo o candidato, o Brasil é subserviente aos interesses da China.
"O Brasil, hoje, é um vassalo da China, de acordo com a ação política do Lula, no cenário global. Onde há uma briga internacional envolvendo interesse chinês, Lula se pronuncia favoravelmente à China", disse Renan.
O candidato citou ainda o conflito entre Israel e Irã para criticar a política externa do governo Lula. "Lula sai se pronunciando sem o Brasil ter nenhum ganho."
Segundo Renan, o mundo passará por uma nova Ordem Mundial, para a qual o Brasil precisa estar pronto.
"Se os Estados Unidos da América, que são a nação hoje mais poderosa do mundo, não fizeram a lição de casa e deixaram a China ficar com todo o processamento de terra rara do mundo nesse instante e vê de maneira cobiçosa o Brasil, nós vamos ter que olhar para os americanos e entender: se nós não tivermos meios de se defender, o que vamos fazer?"
"O mundo vai mudar muito, o mundo vai se reconfigurar. Se nós não reconstruirmos essa rede e o Brasil se colocar de maneira soberana nesse mundo em conflito, o Brasil vai ser vítima desse mundo que vem aí: a ordem mundial pacífica acabou, e o Brasil vai ter que ser capaz de se defender nas próximas décadas."
Confira datas de outras entrevistas com presidenciáveis à Globo
A entrevista com Renan foi a terceira de uma série com os candidatos à Presidência da República. Na segunda-feira (24), o participante foi Romeu Zema(Novo) e, na terça (25), Ronaldo Caiado(PSD).
Veja como foram as entrevistas de Zema e de Caiado.
A Globo convidou os seis candidatos mais bem posicionados na pesquisa de intenção de voto divulgada pela Quaest em 14 de agosto. A ordem das entrevistas foi definida por sorteio, com a presença de representantes dos partidos.
Confira a data das próximas entrevistas:
- 27 de agosto (quinta-feira): Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
- 28 de agosto (sexta-feira): Flávio Bolsonaro (PL)
- 29 de agosto (sábado): Augusto Cury (Avante)
Esta é a primeira vez que as entrevistas da Globo com candidatos ao Palácio do Planalto são após o Jornal Nacional, e não dentro do telejornal. Após a exibição, a entrevista vai ficar disponível na íntegra no g1 e no Globoplay.
O 1º turno das eleições será em 4 de outubro.
O MBL teve origem nas manifestações pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), em 2015 e 2016, e posteriormente se transformou em partido político.
A segurança pública e o combate ao crime organizado são os principais temas da candidatura. Inspirado no presidente de El Salvador, Nayib Bukele, Renan defende uma política de endurecimento contra criminosos e chegou a defender, no lançamento da candidatura, "matar quem roubar".
Entre as propostas estão o aumento das penas para crimes violentos, a construção de grandes presídios, medidas para retirar o controle territorial das facções e a adoção do chamado "Direito Penal do Inimigo", que classificaria integrantes de organizações criminosas como "inimigos do Estado" e eliminaria a presunção de inocência em determinadas situações.
Entre outras propostas, Renan defende condicionar a reeleição de prefeitos ao cumprimento de metas, substituir a CLT por um regime de negociação direta entre contratantes e trabalhadores e extinguir a Justiça do Trabalho.
Também propõe a criação de uma reserva nacional em criptomoedas, frentes de trabalho para reduzir a dependência do Bolsa Família e uma PEC para promover um corte radical de gastos públicos.
- Segurança pública: O plano propõe declarar “guerra ao crime” no primeiro dia de governo e adotar o chamado “Direito Penal do Inimigo”, com tratamento penal mais rigoroso para integrantes de organizações criminosas.
- Combate às facções: Prevê operações de “retomada territorial” em áreas sob comando de facções, amparadas por decretos de Estado de Defesa e por uma Lei Antifacção.
- Superpresídios: Propõe a construção de presídios de segurança máxima inspirados em El Salvador, para isolar lideranças criminosas.
- Desfavelização: Estabelece a meta de acabar com as favelas em dez anos, com regularização de áreas, financiamento imobiliário subsidiado, monitoramento por satélite e criação do crime de “favelização”.
- Fusão de municípios: Propõe reduzir o número de municípios de 5.570 para cerca de 1.600, unindo cidades consideradas “fiscalmente inviáveis”.
- Ajuste fiscal: A chamada “PEC do Equilíbrio Fiscal” prevê economia de R$ 1,1 trilhão até 2031, com redução de gastos públicos, mudança nas regras do abono salarial, redução de isenções tributárias e combate aos supersalários.
- Previdência e vinculações: O plano propõe desvincular aposentadorias e benefícios previdenciários dos reajustes do salário mínimo, corrigindo-os apenas pela inflação, e acabar com a destinação obrigatória de percentuais da arrecadação para saúde e educação.
- Bolsa Família: Prevê substituir o programa por frentes de trabalho remuneradas, voltadas a pessoas em idade economicamente ativa e condicionadas ao desempenho de atividades em benefício da comunidade.
- Educação: Defende substituir o sistema de cotas por bolsas baseadas em mérito acadêmico, priorizar a educação básica, criar um Código Nacional de Conduta nas escolas, ampliar escolas militares e acabar com a aprovação automática onde ainda vigora.
- Desenvolvimento econômico: O plano prevê reformas para aumentar a produtividade e propõe transformar o Nordeste em um polo de desenvolvimento industrial.
Fonte/Créditos: G1
Créditos (Imagem de capa): G1
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