Revelado nas categorias de base do Corinthians, Roni viveu o momento mais marcante de sua passagem pelo clube em 5 de julho de 2022.
Naquela noite, a equipe paulista eliminou o Boca Juniors, da Argentina, em uma Bombonera lotada, em duelo válido pelas oitavas de final da Conmebol Libertadores. Aos 23 anos, o volante teve participação decisiva na classificação.
Em entrevista ao ge, revelou que pediu ao então técnico Vítor Pereira para cobrar uma das penalidades na disputa que definiu a vaga.
Apesar de já ter a lista de cobradores definida, o treinador atendeu ao pedido e confiou em Roni para a sexta cobrança do Corinthians. O jogador converteu seu pênalti e contribuiu para a classificação alvinegra, sacramentada na oitava cobrança, quando o zagueiro Gil balançou as redes.
– Eu era muito questionado. O Vitor me deu um voto de confiança. Ele chegou em mim e falou: "Estão querendo que eu improvise posição, mas não vou fazer isso. É você que vai jogar". Ele me deu um voto de confiança. Eu fiz um bom jogo contra o Boca na Arena. Depois, no segundo jogo, eu pedi para bater, mas ele já tinha a lista. Então eu falei que batia o sexto, mas estava torcendo para acabar no quinto (risos). Eu torcia para acabar logo, mas eu já tinha pedido para bater. Eu estava confiante, não sei explicar.
– Eu acordei e estava confiante. Eu sabia que ia fazer. A caminhada que é difícil, você vai andando... A torcida do Boca fazendo barulho. É uma das torcidas mais vibrantes que eu peguei. Essa caminhada até a marca do pênalti é difícil. O gol parecia que diminuía. Eu tinha treinado naquela semana. O treinador colocou todo mundo para treinar. E eu treinei sempre daquele jeito, em dar uma cacetada no meio. Na época nossos goleiros eram o Cássio, Donelli... Os caras sabiam como eu ia bater no treino e eu soltava a perna. As vezes pegavam, as vezes pulavam. Lembro que o Mantuan depois do jogo disse que sabia que eu ia fazer o gol.
Depois de deixar o Corinthians em 2024 para atuar pelo Atlético-GO, Roni defendeu o Mirassol na temporada seguinte e participou da campanha de destaque da equipe no Brasileirão. O bom desempenho abriu as portas para uma transferência ao Vila das Aves, de Portugal, em janeiro de 2026.
Apesar do rebaixamento de sua equipe no campeonato local, Roni, aos 27 anos, teve motivos para comemorar sua primeira experiência na Europa.
– Esses cinco meses em Portugal foram especiais para mim. Acho que foi a melhor experiência que eu tive na carreira. Eu cheguei lá o clube tinha quatro pontos. São 17 rodadas no primeiro turno. Conquistaram só quatro pontos nessas 17 rodadas. Contrataram um goleiro, um lateral-direito, e o time foi melhorando com as contratações. Era quase impossível tirar o time daquela situação, mas para mim foi um bom semestre.
Ao ge, Roni detalhou sua adaptação ao futebol português e recordou os desafios vividos nos primeiros anos como profissional do Corinthians.
Veja a entrevista com o volante Roni:
Como foram os primeiros meses na Europa?
– Tem uma cultura diferente do Brasil, apesar de ser o mesmo idioma tem suas diferenças. As pessoas são muito boas, educadas, assim como o brasileiro é. Tem suas diferenças, mas deu para se adaptar bem rápido. Minha esposa também gosta bastante. Sobre a língua, a única diferença que eu vejo do Brasil é o inglês, quase todo mundo fala inglês lá. A minha dificuldade foi essa, eu me senti atrasado em relação aos portugueses. Comecei a jogar com francês e inglês, no começo eu ficava perdido. Aí comecei a fazer inglês para não ficar para trás. O básico eu consigo me comunicar com os outros jogadores.
– Vila das Aves é pequena. É uma vila, uma cidade muito boa. É perto de Porto, de Braga... Então ela fica meio que no centro do norte e você consegue pegar o carro e em 30/20 minutos estar em outra cidade. É muito perto. Eu moro em Guimarães, eu demoro mais ou menos isso para chegar no CT, no treino. Eu queria morar na Vila das Aves, só que a cidade chega a ser tão boa que não tem lugar para morar lá. Eu queria pegar uma casa simples lá, normal. E eu não achei, infelizmente. Aí eu fui para Guimarães, é uma cidade espetacular.
Foi fácil se adaptar ao futebol português?
– Eu não tenho concentração lá, a gente não concentra. Isso muda bastante, você consegue ter mais tempo de qualidade em casa, de descanso. É tudo muito próximo. Por exemplo, quando joga em Fortaleza, eu chegava aqui de madrugada. Aí o sono já não é mais o mesmo. Se o jogo foi domingo, você já não dormiu bem de domingo para segunda. Terça você treina e às vezes já viaja ou concentra de novo para jogar quarta.
– Aqui no Brasil a gente vê muita lesão, mas não tem como. Vai ter lesão. Lá também, só que acho que aqui é um número maior de lesões devido às demandas das viagens. O Brasil é um país top. Tem a diferença do clima no Brasil também, pega um pouco. Acho que aí é muito de jogar, como morava em São Paulo eu estava tranquilo, pegava chuva, frio, sol e chuva no mesmo dia. Mas o jogador que atua no Nordeste está sempre no calor, aí vai para o Sul do nada... É difícil.
E o clima em Portugal?
– Quando eu cheguei lá estava um frio que não entendi, eu não tinha roupa para esse frio. É um frio diferente. Teve um jogo que peguei que precisou parar o jogo no meio, estava chovendo granizo. Foi o jogo mais frio que eu peguei. Esse dia minha unha, o dedão do pé congelou. Minha unha estourou. Se eu te mostrasse ela como está agora... Demorei duas semanas para melhorar, agora está ok. O frio que eu peguei para jogar é surreal. As mãos e a boca congelavam. Eu não conseguia falar com os jogadores dentro de campo.
– Eles têm um segredinho lá. Nesse jogo eu falei para o fisioterapeuta que estava congelando. Eu tentei colocar um saco no pé, falam que ajuda, só que o saco derrapa dentro da chuteira. Não deu. Mas a mão, que é o principal, ele pegou vaselina e passou na minha mão e nos braços. Pior que esquentou. Peguei luva de doutor, de médico, e coloquei embaixo da luva normal. Aí foi quando eu descobri que dava para parar de passar muito frio.
Você marcou dois gols contra o Porto e foi eleito o melhor em campo. Como foi essa noite para você?
– Eu não consigo nem te dizer o que aconteceu na verdade, fiquei uns dois dias demorando para a ficha cair. Primeiro pelo filho que vou ter, segundo pelos gols. Eu estava tentando descobrir o sexo do meu filho e teve esse jogo, foi tudo muito próximo. Eu estava muito próximo de fazer o gol, mas não saia. Batia na trave, passava perto e não saia. E acabou saindo num jogo muito importante. Fiquei feliz demais. Demorei uns dois dias para cair a ficha dos gols. Eu acredito muito no trabalho. Uma das coisas que me colocou aqui foi o trabalho, a disciplina. Eu nunca fui o melhor jogador, desde pequeno na escolinha. Mas eu sempre fui o mais esforçado. Isso me gera confiança, quanto mais eu trabalho, acredito que as coisas vão acontecer. E aconteceu.
Vem atuando em qual posição?
– Lá eu joguei de primeiro volante, mais de primeiro. Joguei três jogos de segundo também. Nesse jogo contra o Porto eu estava de primeiro. Só que o mister aqui dá todo suporte, o Mister João. Ele é sensacional. Eu peguei um treinador que me ensinou muita coisa. O futebol lá é diferente. É dinâmico, rápido, acelerado. É toda hora indo pra frente, pra cima. Não tem muito passe para trás. Essa é uma grande diferença. Se não tiver bem fisicamente não joga lá. É muito rápido. Como é dinâmico, é muito mais fácil de sair gol. É trocação. Lá eu aprendi que é pra roubar a bola e conduzir ou tocar para frente, não tem jeito. Desenvolvi muito lá.
E o futuro? Deve seguir no clube?
– Sinceramente? Eu não sei de nada ainda. Estou tranquilo, sei que a temporada foi muito boa. Arrisquei um pouco. Estava muito bem no Mirassol, mas eu tinha um desejo de jogar na Europa e jogar contra grandes jogadores. Não que o Brasil não tenha, aqui você pega os times, em termos de qualidade, é animal. Todo jogador brasileiro tem o desejo de jogar lá. Mesma coisa que eles, que aprendem jogando aqui. Aqui é muito pensado, não é tanto trocação. É no detalhe. Lá é mais aberto. Não sei o meu futuro. Saiu muita coisa, eu nem sabia, eu só vi. Me mandaram no Instagram de um possível interesse do Rayo Vallecano. Mas eu não sei para onde eu foi, mais para frente fico sabendo.
O início no Corinthians foi bastante conturbado. Como foi subir para o profissional naquela crise?
– O clube não estava numa fase espetacular, estava difícil. Lembro que estávamos brigando na zona, tinha acabado de perder um jogo pro Fluminense. Esse jogo mesmo teve cobrança no aeroporto. Lembro que nunca tinha visto aquilo. Quando vi aquilo, eu pensei que isso sim era de verdade mesmo. O Corinthians me ensinou tudo. Quem joga no Corinthians joga em qualquer lugar, não importa onde seja. Foi um inicio conturbado, não estava numa fase boa.
Fonte/Créditos: Globo Esporte
Créditos (Imagem de capa): Globo Esporte
Comentários: