Menos de três meses. Menos de 20 jogos. Conquistou o título mineiro, é verdade, mas com uma rejeição brutal da torcida, que cantou adeus como um mantra até a demissão ser formalizada. À distância, parece ter sido devastadora a passagem de Tite pelo Cruzeiro no início deste 2026. Ledo engano. O técnico deixou Belo Horizonte muito mais empolgado do que antes.
– Reacendeu meu tesão! Sim! O prazer, a satisfação do dia a dia. Quando estávamos num momento difícil, fiz uma reunião com todo mundo e disse: "Vem cá, vocês acham que eu cheguei até aqui de graça? Tenho muitas cicatrizes! Querem que eu conte uma história?". E aí pediram para eu contar. E, daqui a pouco, estávamos todos comemorando em campo. Essa alegria dividida com o funcionário me dá bastante prazer, esse lado humano me deixa bastante feliz.
Tite deixa claro que a relação conturbada com o torcedor teve mão única. Ao Cruzeiro, ele é só elogios: aos dirigentes, à estrutura, aos jogadores. Mas lamenta a falta de tempo para desenvolver o trabalho, que durou apenas 90 dias.
Abre Aspas Tite (parte 1)
Há algumas semelhanças com o trabalho no Flamengo, entre 2023 e 2024: o título estadual e a incompatibilidade com os torcedores, por exemplo. Mas, desta etapa da carreira, Tite guarda uma mágoa.
– Fiquei muito chateado porque não pude dar tchau para os funcionários nem ter essa relação humana com os atletas. Fui me despedir deles um ano e meio depois, quando nos enfrentamos. Fui solicitado a não ir. Então, é uma falta de respeito humano. Num clube extraordinário, de grandeza extraordinária.
Flamengo e Cruzeiro foram os dois únicos clubes de Tite desde a Copa do Mundo de 2022. Não por falta de convites. Nesta segunda parte da entrevista ao Abre Aspas, ele revela alguns clubes que o procuraram. Outro não é segredo. O Corinthians, mais de uma vez. Em 2025, chegou a aceitar a proposta, mas declinou após uma crise de ansiedade na madrugada antes de se apresentar.
Em 2023, antes de assinar com o Flamengo, recusou duas vezes. E se arrepende. Mais do que isso: pede desculpas ao clube onde obteve suas maiores conquistas.
– Desculpa, Corinthians. Eu errei. Se a gente pudesse rebobinar, eu teria ido para o Corinthians. Porque eu não queria trabalhar naquele ano. Não queria.
Ficha técnica:
- Nome: Adenor Leonardo Bachi (Tite)
- Nascimento: 25 de maio de 1961, 64 anos
- Profissão: treinador e ex-jogador de futebol
- Clubes como treinador: Guarany de Garibaldi, Caxias, Veranópolis, Ypiranga de Erechim, Juventude, Grêmio, São Caetano, Corinthians, Atlético-MG, Palmeiras, Al Ain (Emirados Árabes), Internacional, Al-Wahda (Emirados Árabes), Flamengo e Cruzeiro
- Na Seleção: campeão da Copa América (2019) e líder invicto nas duas Eliminatórias que disputo. No total, 81 jogos, com 60 vitórias, 15 empates e seis derrotas; eliminado nas quartas de final nas Copas de 2018 e 2022.
- Títulos como treinador: Mundial (2012), Libertadores (2012), Copa Sul-Americana (2008), Recopa Sul-Americana (2013), Brasileirão (2011 e 2015), Paulista (2013), Carioca (2024), Mineiro (2026), Gaúcho (2000, 2001 e 2009), entre outros.
ge: Quer voltar a trabalhar logo ou pretende dar um tempo e aproveitar com a família?
Tite: – Eu retornei de Minas e estou no Rio Grande do Sul, vendo a família um pouco, meus irmãos, meu sogro. Estou com um "approach" também em relação à família, pronto para estar novamente seguindo a minha carreira profissional, tal qual ao longo desse tempo foi, com muita tranquilidade, com muita satisfação, com muita energia, com muito brilho no olho, que é o que tem me movido ao longo desse tempo todo.
O ambiente do futebol de clubes se transformou muito entre a sua ida para a Seleção e o seu retorno ao dia a dia de clubes?
– Eu digo que os hábitos organizacionais dos clubes, talvez a diferença seja de clube-empresa para um clube normal, tradicional. O comando tem algumas características diferentes. Antes eu estive conversando com o Botafogo, que tem essas características também, com seus dirigentes. E agora, com o Cruzeiro, eu digo que hábitos organizacionais, uma cultura organizacional, ela é um pouquinho diferente de um e de outro, ela tem diferença. Mas ela é fundamentalmente do comando e de uma sintonia entre técnico, comissão técnica, dentro da hierarquia, as pessoas que comandam, seus atletas e estafe. E essa não muda ao longo do tempo.
A parte de cá mudou muito? Nós como mídia, redes sociais...
– Ela modificou, sim. Talvez tenha aumentado bastante a divulgação por outros meios e de outras formas, sim. E o que rege tudo isso é a qualificação. Qualificação profissional, independentemente das redes sociais, de influencers, de TV tradicional. Eu acho que, ao longo do tempo, o filtro da qualificação vai cada vez mais se estabelecendo. Claro que (tem de haver) um cuidado em cima de informações erradas, mentirosas, elas devem ser cuidadas para que não se estabeleça um comentário em cima de uma história que não é real. Esse cuidado ele tem que ter. Mas ele é fundamentalmente regido por qualificação, em todas as áreas, na área de comunicação também.
Depois de um período longo na Seleção, você precisou de uma adaptação pessoal para voltar à rotina do clube?
– Sim. Eu digo que a seleção é um bunker, ela te demanda estudos. Vou ser específico: o Casemiro, a posição-função, na minha época, que ele exercia no clube. E dentro da minha ideia de futebol trazer para que ele possa exercer dentro da Seleção a mesma posição-função. Por quê? Porque eu não tenho tempo de treinar. Então ajustar esses principais atletas à situação era sempre o desafio e acompanhá-los. Diferentemente do clube, tem sempre dois jogos (na Data Fifa), fora a Copa América, fora os Mundiais. Tu tens uma rotina diferente. São doze dias que é um bunker de tensão, de treinamento, de ajuste, de quantificação de carga.
– Um atleta jogava no domingo, outro jogava no sábado. Na apresentação nós fazíamos um trabalho diferenciado na quantificação de carga. Por quê? Porque o atleta vem no domingo e não recupera para estar pronto para o próximo jogo. Eu lembro que o Thiago Silva uma vez colocou: nós jogamos contra a Venezuela e fizemos um primeiro tempo muito ruim. Depois nós revertemos o placar, acho que foi 3 a 1. Ele disse assim: "cara, quando a gente vem, e o jogo é muito em cima, a nossa capacidade de concentração diminui muito". Por mais que a gente tente, essa recuperação pesa. Eu ouvi o Rodri falando nisso, dizendo que não podia chegar a 62 jogos: "Senão não vou conseguir chegar aos 32 anos no ritmo que está". Ele jogando em média 60 jogos. Tu pegas as principais equipes que jogam de 72, 73, 75. "Ah, é pouco de diferença". Coloca 12 pausas. Vai ver o quanto ela traz de condições melhores.
Depois da sua volta, você trabalhou num clube com presidente e num clube com dono. Você negociou com o presidente do Flamengo e com o dono do Cruzeiro. As abordagens foram diferentes?
– Em relação ao Landim, a gente já se conhecia na época da seleção brasileira, nós fomos campeões da Copa América juntos, e ele era o diretor (chefe de delegação). Então nós já nos conhecíamos, talvez não com a devida profundidade. O Pedrinho, dono do Cruzeiro, nós não nos conhecíamos muito, né? E faltou, sim, um tempo maior de nos conhecermos, as características, perfil, ideias. Isso faltou. Para os dois, para que tivesse uma situação melhor.
Você acha que faltou tempo para desenvolver mais o trabalho no Cruzeiro?
– Sentia, sim, que iria permanecer no Cruzeiro para fazer o trabalho a médio e longo prazo, o ano todo. Foi proposto até dois anos de contrato, eu disse: "não, um ano só e depois avalia". Para que tenha esse período todo de trabalho, para fazer um trabalho que não é bom nem ruim, é um trabalho que não terminou. Porém, com parcelas importantes. O primeiro objetivo quando nós sentamos, nas poucas vezes que conversamos antes, foi: o objetivo do Cruzeiro? Ser campeão mineiro, uma retomada após seis anos. E na minha apresentação eu coloquei a eles todos, a toda a família, que é uma família extraordinária que vive e ama o Cruzeiro, ela transpira Cruzeiro, esse reconhecimento se faz a todos eles de uma maneira extraordinária.
– E aí um planejamento que ele poderia ter sido melhor, mas iniciando sem os principais atletas, demorou para engrenar. O que eu faria diferente? Eu traria os atletas mais da equipe base anteriormente. Colocar as Crias da Toca para jogar, como aconteceu, né? Para dar a elas (sequência), elas precisam dessa oportunidade, e os regionais também. Porém, os resultados que não aconteceram nos pressionaram. Tanto é que foram oito primeiros jogos. Nós jogamos os três primeiros dando um tempo para que os atletas se condicionassem fisicamente. Depois teve uma integração, e nesse meio tempo nós fizemos oito jogos e perdemos cinco. Nesses cinco está a perda do clássico, que é muito importante, e o Atlético-MG foi melhor e mereceu. E o início do Campeonato Brasileiro, em que a gente perdeu para o Botafogo com o placar dilatado. Isso gerou uma intranquilidade. Quando está 1 a 0, nós muito próximos de empatar, deu cãibra no jogador, ele saiu de campo, deu cãibra no segundo jogador e nós ficamos no impasse: vamos modificar? E o árbitro olha… Ali gera a modificação, na dúvida do atleta da informação se dava ou não para continuar, nós dissemos: bate o escanteio. Bateu o escanteio, tomou o segundo. Então ele trouxe dois resultados (negativos) numa sequência.
– Depois disso, falando em resultados desportivos, aí sim, mais ajustado, mais treinado, nós fizemos nove jogos, fomos campeões mineiros. Não só campeões mineiros, mas ganhando o clássico. E aí foi de uma forma muito emblemática, incisiva. Isso chancelou, e fizemos uma sequência de cinco ou seis jogos vencendo. Fomos campeões mineiros numa situação de ver o quão alegre uma torcida toda... Nunca tinha tido assim, com as famílias comemorando dentro do campo, e as famílias todas dos atletas estando ali, muito próximas do torcedor, com as famílias do Pedrinho presente, do Júnior. Então, nesses nove jogos nós fomos perder um jogo, contra o Flamengo. Porém... E aí eu vou falar a frase que a minha filha disse: "Pai, tu vives numa atividade profissional onde essa inconstância é uma marca". E aí foi a despedida.
Como você viveu aquele episódio da final do Campeonato Mineiro, da briga pós-jogo?
– A primeira coisa que me vem à cabeça é como eu vivi a semana que antecedeu o jogo final. Uma expectativa absurda. Uma tensão no ar absurda. Algo que poucas vezes eu (vivi), olhava e dizia assim: "cara, é sim, mas menos um pouco, vamos concentrar, vamos trabalhar". Eu lembro que uma pessoa chegou próxima a mim e disse assim: "professor, tu que tens tanta experiência em decisões assim, como é que está a nossa semana?”. Isso eu acho que era na quarta-feira, mas a pergunta com um ar ofegante. Eu digo: "a experiência me trouxe é que não posso viver o jogo decisivo hoje, eu tenho que fazer de cada dia o meu melhor dia. Essa é a preparação no final". E foi isso que eu passei aos atletas, porque também estava essa energia toda, essa expectativa toda. "Pô, não vai perder de novo, já perdeu tantas". E isso estava no ar, contagiava.
E uma rivalidade exacerbada com o outro lado?
– Não teve. Em termos de torcida, eu não senti isso. Aliás, a torcida foi exemplar. Porque fazia bastante tempo que era torcida única. Pelo que eu soube, não teve nenhum atrito. O exemplo também foi do torcedor, que dá para torcer, vibrar, ser feliz sem querer o mal do outro ou sem brigar. Essa semana toda passei isso para comissão técnica: muito cuidado, porque nós temos um dia a mais e ele pode ser um tiro no pé, se trabalhar de uma forma excessiva, tu não vais responder no domingo. Se eu pressionar demais, vou deixar o atleta muito pilhado. Quando a equipe desempenhou o que ela desempenhou, eu fiquei muito feliz, porque não foi ao acaso. Ganhou de uma forma categórica. Quando tu trabalhas com jogadores que cresceram tanto, não só no aspecto técnico, mas no aspecto homem, caráter, conduta... Alguns eu já conhecia: o Cássio com a evolução dele e com a liderança que tinha; Matheus Pereira, que afora jogar muito é um (camisa) 10, 10, eu aumentei muito a percepção da qualidade do Matheus trabalhando como pessoa; Lucas Romero, Gerson, o Kenji, que é um menino da base. Quando você trabalha e vê esse desenvolvimento todo fica extremamente gratificado com as coisas que aconteceram, porque elas acabaram combinando com o título.
– Sobre o episódio no final do jogo, tem muita coisa passada nisso. Foi um estopim de situações passadas, de rivalidades, de provocações que já aconteceram. Eu só comecei a entender isso depois, passado o tempo a gente começa a entender. Uma situação do ano anterior, do Cruzeiro não ter classificado para a final e ter ficado fora para o América-MG. Manifestações de torcedores... Não é a torcida, entenda bem, alguns. (Coisas) muito perigosas aconteceram e isso criou uma atmosfera difícil também dentro do grupo. Daqui a pouco tu faz um lúdico do futebol, tu ganhar, mas tu não precisas tripudiar em relação ao outro. E ela tinha uma conotação. Quando aconteceu o episódio, nós estávamos na iminência do título, foi feita uma falta tática. Eu considero assim: o Christian fez uma falta tática no Everson. Porém, a reação dele foi desmedida. E a partir daí ela foi o estopim para o que aconteceu. Não gostaria que acontecesse. Falei isso para os atletas.
– Aliás, eu externo, numa relação de lealdade que eu tenho para dentro: não gostaria que tivesse acontecido dessa forma, não é exemplo para garotos que estão ali, não é exemplo para os meus netos, não é exemplo para ninguém, mas também entendo que há todo um contexto de reação, não foi de ação
Mas o ambiente não está muito carregado no futebol? A forma como se vive rivalidade, o grau de tensão que as pessoas levam para o estádio, até chegar nos jogadores. Não há uma carga excessiva?
– Absolutamente sim. Eu não sei se ela é um reflexo, talvez o seja, do momento social que a gente vive. E não é só Brasil. Se olhar de uma forma um pouquinho mais abrangente. "Se não for do jeito que eu penso, não pode". E aí tu não podes ter uma opinião diferente. Na internet eu recebo algumas críticas, e quando é uma crítica ponderada, balizada, tu passa da informação, quando ela é verdadeira, para uma opinião própria e deixa aberto às pessoas que façam a sua própria (avaliação). E isso faz parte da vida. Eu sou educador, faço questão de colocar que eu sou, de origem, professor de Educação Física. Eu sou educador, eu e a Rose somos educadores. Temos essa felicidade de ter um casal formado e que tem uma responsabilidade em cima disso, e que gostaria que as coisas fossem também assim, e não ser só o meio que eu vivo, ele mastiga e cospe fora o técnico, e azar, e troca, e vem de novo, e se não dá é briga, é conflito. Tem uma maneira mais racional, mais inteligente, mais humana de tratar as coisas.
O que você fez durante a pancadaria?
– Hoje as mídias sociais conseguem reproduzir em alguns momentos, o cara fica filmando. Por exemplo: eu entrei justamente para tirar o máximo de pessoas. Quando acalmava de um lado, estourava no outro. Toda a segurança do Cruzeiro foi muito bem, não vi (agressão) nenhum momento, (estava) tentando tirar. Mas tinha alguma coisa nesse meio tempo com algumas pessoas específicas, que eu sei, mas eu não quero falar. Posso falar, mas não devo e não quero. De atritos anteriores, de situações passadas. Então tem situações pessoais, nem clubísticas são. Pessoais, profissionais, manifestações. Então tirava de um lado e começava do outro. Também tem uma manifestação que eu fiz a um determinado atleta, mas eu não quero também falar, porque eu respeito...
Do seu time ou do outro time?
– Do Everson, que eu gosto, convoquei, então vou falar. E aí nós conversamos. Ele disse: "pô, mas não podia". Eu digo: "está errado, Everson, está errado". Eu gosto dele, não queria nem que se manifestasse de uma forma pública, mas como ela foi ali exposta... Eu gosto dele, sei da integridade dele, conheço, conversamos na Seleção, eu disse assim: "tu estás errado". É uma forma que eu não faço pública, de corrigir, nessa eu estou abrindo uma exceção, inclusive pelo respeito que tenho por ele, pelo carinho, porque sei a pessoa que ele é. Porém, ele errou naquele momento.
Nunca foi tão questionada a dinâmica de trabalho entre você e seu filho Matheus quanto no Cruzeiro. À distância eu ouvi uma série de coisas do tipo: "o Matheus tomando a frente de algumas decisões ao contrário do que acontecia antes". Você acha que foram críticas infundadas?
– Informação agora: o técnico Tite, não é o Adenor, é ele que determina o modelo, a estratégia, ele forma a sua comissão técnica com dois outros técnicos, procura aproveitar no seu clube o técnico permanente, que foi o Wesley no Cruzeiro, para ter esses profissionais com o analista e formatar (a equipe) com a definição do técnico. A partir da definição, ele estabelece o trabalho de preparação e a divisão de funções. E ele, por vezes, dá (ordens) e por vezes supervisiona e interage, delegando a eles autonomias em alguns trabalhos. Continua exatamente a mesma. Tanto ele, como o Vinícius, quanto o Wesley, e o Henrique no Cruzeiro. Continua exatamente o mesmo.
Como você sentiu a repercussão daquele episódio seu com o Matheus na beira do campo?
– Tal qual os atletas, eu e a minha esposa somos professores e educadores. Eu vou repetir: a gente elogia em público e corrige no particular. Contextualizando a situação: era uma reclamação com a arbitragem no jogo contra o América-MG, que ela errou em dois, três lances, e que também era uma sequência de jogos que ia nos permitir chegar no título mineiro ou não. Então estava exacerbado. Passou do ponto em termos de reclamação, tanto ele quanto o Vinícius. Depois eu falei: ali é comigo. Mas essa foi em particular, nessa situação, de colocar que ele passou do ponto. Assim como eu coloquei depois o Vinícius: deixa para mim para conversar e ter um diálogo com o quarto árbitro ou com o árbitro. Essa é uma situação, vamos colocar assim, tal qual o pai dele, na idade dele, foi expulso algumas vezes entrando em campo e reclamando. Cara... Ela não tinha nem essa conotação. Ela tinha no sentido de falar com a arbitragem.
Mas é que ele pareceu reagir mal à sua tentativa de conter.
– Ele dizia assim: "deixa que eu...", porque nós estávamos jogando o nosso emprego. Ele estava sentindo que o nosso queijo, que nós tanto trabalhamos, estava... Daqui a pouco, por um erro de arbitragem, uma situação pode acontecer. E ele passou do ponto e conversei com ele. Aliás, ele veio conversar comigo já.
– Veja o quanto o técnico é grande e, daqui a pouco, o filho fica sempre em termos comparativos. Não só o Matheus comigo, mas outros tantos exemplos estão aí, nas diferentes áreas: jornalística, médica, política. Você tem que ser valorizado pela tua qualidade. Falando ainda mais agora como pai, eu tenho muito orgulho do trabalho do Matheus e dos princípios éticos que ele tem. Eu tenho muito orgulho. Não dei nada a ele. Nós, enquanto educadores, não. Assim como a minha filha, cientista social, socióloga, tenho muito orgulho dessa conduta. Foram criados com senso crítico, não pré-determinados. Buscou a qualificação dele na (Licença) B, A, Pró. Na CBF Academy, formado em Ciência do Exercício, há 12 anos comigo. Ele me encheu o saco para contratar o Guerrero em 2011, quando assisti ao jogo da seleção do Peru contra a seleção do Uruguai. "Pô, tem um centroavante". Eu disse, está bom. Meu analista de longa data. Então, fico muito tranquilo. Algumas situações acabam acontecendo até pela própria visibilidade. E um dia ele falou assim: "pai, tu é muito grande, cara, e daqui a pouco...".
Você nunca pensou que seria bom para a carreira dele o caminho próprio?
– Vai ter o momento. Só que agora eu quero os bons do meu lado. Uma vez o Gilmar Dal Pozzo falou para mim assim: "gringo, tu é duro". Eu disse: "o que é, rapaz?". "Tu só escolhe cara bom do teu lado, né?”. O Matheus, teve Cléber Xavier, César Sampaio, o Sylvinho... Uma série de auxiliares. E começou lá no departamento de análise. Arrumei uma bronca com a minha mulher, porque ela já queria que ele fosse para o campo. Eu disse que não ia levar para o campo, que ia começar no departamento de análise, para galgar todos esses passos, para estar aqui há 12 anos. Então eu tenho muita tranquilidade para falar. Aliás, num gesto simbólico, quando nós somos campeões em 2015, se tiver a imagem, eu pego a minha medalha e coloco nele, porque o quanto ele me ajudou na linguagem das gerações Z e Y. Ele disse: "te comunica com eles, traz, porque eles vão precisar dessa forma". Ele traz também o jovem com o experiente. E (é) bom, e bom.
Você relata que após a Copa de 2022 sentiu um pouco a derrota, atravessou um período recluso, mais calmo... E aí depois disso falou: "está tudo muito tranquilo, vou pro Flamengo". Foi isso?
– Foi uma série de aspectos que aconteceram. Primeiro, foi o convite do Corinthians, que eu tenho um respeito e uma consideração muito grandes. Quero me situar bem no tempo. Eu tinha uma possibilidade e já estava conversando com uma possibilidade real de um clube da Premier League, que era o meu grande objetivo. Cansei de fazer aula de inglês com o Tales, meu professor, e sempre direcionado, acho que nós sabemos tudo individualmente dos atletas desse clube e a forma dele jogar, de tão inglês induzido ao futebol que nós fazíamos.
Era o West Ham?
– Sim. E aí, com essa perspectiva, passou, o clube não confirmou, abriu-se uma situação que eu tinha falado anteriormente, que não ia trabalhar em 2023, porque imaginava ter essa possibilidade (no exterior) e apostei nela. Algumas oportunidades surgiram. A primeira delas, do Corinthians. Eu já estava conversando (com o West Ham). Dei a minha palavra e tenho essa busca. Na segunda vez, se eu tivesse que voltar no tempo, eu aceitaria o convite do Corinthians. O Corinthians foi o clube que eu saí para ir para a Seleção e, mesmo contrariado, ele aceitou. Se eu tivesse que voltar no tempo... Eu não tinha ideia de ir para o Flamengo, tanto é que na mesma data ou em dias diferentes o Corinthians tinha contratado o Mano, e o Sampaoli continuava no Flamengo, não tinha uma coisa ligada à outra, porque eu não queria trabalhar naquele ano.
Essa segunda do Corinthians ainda em 2023, é isso?
– 2023. E aí o que eu tenho que publicamente dizer é: desculpa, Corinthians. Eu errei. É assim, por uma questão afetiva, um clube que também na saída, no retorno… Se a gente pudesse rebobinar (faz som de fita rebobinando), volta: eu teria ido para o Corinthians. Porque eu não queria trabalhar naquele ano. Não queria.
E como é que você se convenceu do contrário?
– Depois acabou acontecendo o Flamengo. Deu mais algum tempo, aconteceu o Flamengo.
O que te fez mudar de ideia e trabalhar em 2023?
– A possibilidade de que a ida para o Flamengo ia chancelar um final de campeonato em que as competições já tinham terminado para o Flamengo, com exceção do Campeonato Brasileiro. Era a terceira vez que o Flamengo vinha atrás. Eu disse: "quero conversar". E aí a possibilidade de eu ter um diagnóstico da equipe para depois trabalhar, naquele final, eu disse: "os objetivos já não tem, a não ser classificação direta para Libertadores".
Mas quase apareceu um título brasileiro, porque em dado momento o Botafogo teve uma queda surpreendente, e o título ficou meio aberto...
– Sim. A equipe cresceu, e o jogo emblemático foi o que nós perdemos para o Atlético-MG em casa. O objetivo do clube era: primeiro, tu tens a condição, conhece a equipe, trabalha para o ano que vem. O objetivo era a classificação direta para a Libertadores. O ano seguinte é retomar o título carioca, e nós retomamos o título carioca, porque tinha perdido antes, e contra um Fluminense campeão da Libertadores, né? Vamos contextualizar. Ele tinha sido campeão no ano anterior da Libertadores, e de uma forma invicta, muito emblemática também, muito forte.
– Depois acabaram acontecendo também… A minha sensação em relação ao Flamengo é que ele transpira Libertadores e Mundial. Tudo que não for Libertadores e Mundial é pouco. Nós perdemos Pedro, Cebolinha e Luiz Araújo, o trio de ataque, que eram quase 60 gols. A gente acabou perdendo o primeiro jogo, empatando o segundo com o Peñarol, e aí veio na demissão. Era essa expectativa, vamos ter dois títulos, mas verdadeiramente o título (desejado), para mim, a sensação que passou era a Libertadores e o Mundial. Esteve próximo com o Flamengo do Jesus e se busca ainda, porque a marca ainda é do Corinthians, é minha enquanto técnico, daqui a pouco fica aí o desafio para outros.
Você se sentiu querido pela arquibancada do Flamengo?
– No primeiro semestre, quando os resultados vêm, sim. Depois, não. Mas eu tenho um estilo próprio, talvez não tão identificado e isso acontece, é natural, é do jogo. Mas quando o resultado não veio, essa situação acabou acontecendo, ela é inevitável. No início, sim. Eu lembro que, quando fomos campeões, um dirigente disse: "é ano eleitoral, obrigado porque de alguma forma tu trouxe paz pra nós", que é bastante difícil. O Pedro também falou logo que assumi, num momento extremamente difícil, e ele disse: "você um pouco de paz para trabalhar".
– Falando mais especificamente (da arquibancada): o título nos trouxe. Bom, agora vamos buscar o outro. Mas nós ficamos na semifinal da Copa do Brasil. "Ah, mas se ficasse ia ganhar?". Não sei. Mas a gente tinha tirado o Palmeiras, hoje essas são as duas equipes com maior poderio em termos organizacionais, não só dentro quanto fora de campo, em qualidade técnica e em investimentos. E o Bahia vinha num grande momento, talvez o melhor Bahia que eu vi jogar. É meu sentimento... O Flamengo transpira Libertadores e Mundial.
Você já tinha sido substituído por um ex-atleta seu?
– O Filipe é um cara apaixonado pelo futebol. O Filipe é um cara por quem eu tenho um respeito muito grande. O Filipe talvez seja mais identificado com o Flamengo do que eu pudesse, pelo meu estilo. E isso acontece, é da vida. E o que tem de errado? Não tem. São estilos. Às vezes eu olho para certas pessoas e digo: esse estilo me cativa. E é da vida, é do jogo.
Você acha que tinha a ver com estilo de jogo também?
– De posse de bola, de querer e gostar da bola, sim. Porém, ele trouxe um componente maior, mais agressivo de marcação individual. Contra o Bayern é um exemplo disso. Tanto poderia fazer o gol como tomar. Daqui a pouco você tem o Bayern também fazendo essa marcação individualizada. Por vezes até essa perseguição mais prolongada, não só numa alta, mas numa sequência. Tanto é que os gols acabam acontecendo assim. O Felipe é um cara que gosto, ele tem a paixão e é muito identificado. E que, talvez também por esse início de temporada ele acaba sendo substituído de uma forma que ela é... Eu disse: gente, não. Será? Será? Porque o meio do futebol… Mas gosto muito, gosto muito.
Surpreendeu a velocidade como o Filipe Luís deslanchou na carreira?
– Vamos fazer etapas: eu assumi uma equipe forte, extraordinária, com poderio técnico, mas com a necessidade de ter opções e contratações. Aí machucaram atletas, as peças de reposição, as adaptações não surtiram efeito. Estou falando de uma fase anterior, antes de eu assumir, quando assumi e a necessidade, e aí a vinda dele com o investimento em atletas, com peças de reposição. Isso te dá um poderio muito forte. Porque em algum momento, tecnicamente, um atleta desce, tem outro que sobe, dentro do próprio jogo ou na titularidade. Tem peças de reposição que têm um nível muito alto. Essa é uma característica de um grupo forte. Uma equipe não vence, um grupo forte vence. O Filipe Luis trouxe esse componente e essas contratações, juntamente com a direção, esses investimentos para que esse salto de qualidade acontecesse.
Houve também a Copa América, que ocasionou muitas rodadas do Brasileirão sem muitos jogadores importantes.
– Também. Eu tenho que falar a verdade, mas também sem (desculpas). Nós tivemos, sim, uma série de jogadores fora. A verdade é a verdade. O Pedro machucou na Seleção. Então você perde 60 gols de poderio de ataque. O Plata tinha recém-chegado, nós não imaginávamos que pudesse machucar. Mas também planejar para que viessem antes esses reforços. Eu constantemente coloquei a necessidade, pela grandeza e pela busca que o Flamengo tem. Eu sei que é uma frase (ousada), mas nós queremos ganhar tudo. Primeiro que não vai ganhar tudo nunca, não consigo ver. Mas eu entendo, é uma forma de dizer: nós temos que estar chegando em todas. Essa é a conotação. Precisa ter um grupo forte. O Flamengo e o Palmeiras são pródigos hoje nessas peças de reposição, estão em um patamar bastante alto.
Você passou por clubes de massa, entre eles os dois de maior torcida no Brasil: Corinthians e Flamengo. É diferente? Há uma pressão maior?
– (Reflete) Quando tu estavas falando e me perguntando, talvez a câmera tenha pegado o meu ar de surpresa, e agora a minha demora em te responder ela diz: eu não consigo ver. Talvez, porque primeiro a minha pressão maior é comigo mesmo de dar o meu melhor. Claro que o número de torcedores está muito perto de São Paulo, está muito perto de Grêmio, está muito perto de Inter. Então tem um bloco aí que é Atlético-MG, Cruzeiro e tal, que é absurdo de grande. Não senti. Não sinto.
Você falou da primeira situação com o Corinthians em 2023, antes de ir para o Flamengo. Teve outra no ano passado, em que você chegou a aceitar o convite e depois acabou declinando. Você entendeu o que aconteceu e pode explicar para quem até hoje é curioso para te ouvir sobre isso?
– Eu faço terapia já faz mais de dez danos. Ela é direcionada ao trabalho, à minha particularidade, para eu estar bem comigo mesmo. No momento pós-Copa, eu também estava tão puto da cara que até larguei um pouquinho: não quero, assim como a espiritualidade também. Mas aos poucos eu fui entender o que já falei anteriormente: as coisas são. E quando elas estão a teu favor, você tem que conhecer também, e aí vai embora.
– Aquela semana, e ela foi muito pesada para mim, nós estávamos em Torres, no Rio Grande do Sul, e começou a chegar e bombar um convite atrás do outro. Veio um convite do Grêmio duas vezes. O presidente queria falar comigo e depois o diretor. E tenho uma gratidão também pelo Grêmio, porque foi o clube que me abriu as portas para alçar um estágio diferente do que eu estava. Eu colocava para ele que tinha outras situações: "cara, não dá, vai à luta". Eu me considero construtor de equipe também, trabalho com início, meio e fim, porque aí consigo direcionar. Talvez ao longo da minha carreira toda o sucesso que tive foi com essa característica. Veio um outro clube que ele pediu para não falar naquela época e não me deu o direito agora também de falar, e era de uma pessoa por quem eu tenho uma gratidão muito grande e de um presidente que admiro. Depois veio o Santos, insistentemente. Em um período de uma semana? Cinco dias.
Tiraram o sossego?
– Tiraram o sossego. E, cara, eu não conseguia dormir. Pô, cara, será que eu devo ir agora? Vai, não vai? Será que eu tenho condição de dar à equipe o que ela precisa? Gerenciamento de carreira é bastante difícil. Já num sistema onde o técnico é velho, não serve, sai, vai embora. Como dá para desenvolver um trabalho? Mas ao mesmo tempo esse lado afetivo, de gratidão, veio e eu não consegui dormir. Passava (na cabeça): "não, obrigado, presidente". Vamos, vamos, vamos. Corinthians. Digo: "agora eu vou. Agora eu vou. Agora eu vou". Era Páscoa, dei um abraço (na esposa Rosmari), disse: "eu vou, eu vou, eu quero, eu quero retribuir um pouco daquele afeto que me desculpei anteriormente, que deveria ter ido antes". Decidimos, ok, vamos lá. Eu fui deitar. Quando deu uma hora da manhã, mais ou menos, eu acordei, comecei a caminhar e não conseguia mais deitar, não conseguia mais descansar. E aí me vinham algumas imagens. A Rose perguntou: "o que é que você tem aí?". E eu disse: "pô, eu tô muito nervoso, eu não consigo…" (ofegante). Será que vai dar certo? Será que eu estou tomando a decisão? Uma série de dúvidas ficou pairando. Pô, eu já não fui para esse, não fui para esse, não fui para esse… E aquilo ficou num acúmulo de situações durante uma semana. Foi uma crise de ansiedade, eu não teria condição de vir e desenvolver o trabalho todo em cima dessas expectativas, eu não conseguiria me recuperar de novo. Eu não vou conseguir trabalhar legal. Não vou conseguir… com os atletas não vai ser. Puxa. Então aquilo ali me tirou essa normalidade.
– Depois que eu falei publicamente, coloquei que tinha uma crise de ansiedade, uma série de pessoas conversaram comigo e até vi que outras se manifestaram publicamente. As pressões que tem no futebol, que tem vocês, que tem um ser humano, que tem aquele que acorda às 4h da manhã e que tem que buscar o seu ônibus, recuperar a grana, conseguir a grana para sobreviver com a família. Claro, faz parte, não estou dizendo que é mais, o que é menos, enfim. Eu disse: "pá, nessa situação que eu estou, não dá. Não dá. Eu não vou conseguir". E aí coloquei: tive a crise de ansiedade, não dá. Não tenho condições.
Você contou que faz terapia há muitos anos, mas na Seleção não quis trabalhar com um psicólogo na comissão técnica. De alguma forma, as questões que você teve de saúde mental recentemente te fizeram repensar a participação de um profissional dessa especialidade na sua comissão?
– Ela é bastante difícil de colocar. O que eu posso trazer como experiência? Isso teve no Palmeiras, eu trabalhei com uma profissional em que há uma orientação... Isso foi na Seleção, no Flamengo, também no Corinthians. Então é uma profissional que direcionava situações das relações pessoais com o atleta. Um exemplo: o atleta se manifestou de certa forma. Você vai conversar com ele. Daqui a pouco ele está externando que tem uma necessidade de verbalizar alguma dificuldade. Ele canalizou isso para uma reclamação. Ouça o que ele tem para te dizer. Ela (psicóloga) dá norte para que o técnico possa (agir). Ela é um aporte, e eu sempre utilizei dessa forma, e já faço isso há mais de dez anos, desde o Corinthians. Algumas vezes foi com a comissão técnica toda, principalmente na Seleção.
– Eu vejo um profissional qualificado e que precisa, sim, pelo número (de casos). Quem não conhece alguém que teve uma crise de ansiedade? E que às vezes é meio tabu. Ela é do jogo, eé da vida das pessoas, todos nós temos que trabalhar isso. Precisa de psicólogo estar no dia a dia? Um psicólogo que conheça as situações do esporte especificamente, sim. Uma vez um atleta no Flamengo, um dos capitães, me disse: "se a garotada toda não souber filtrar as redes sociais, isso é opressor, machuca tudo, cara". Vai muito dessa educação também da própria pessoa, de saber ter os seus filtros. Eu fiz esse preâmbulo para dizer assim: eu não sei se o psicólogo dentro do trabalho, especificamente, ele possa surtir o efeito desejado em uma situação. Não estou dizendo nem que sim nem que não. Eu gosto do profissional, sim, todas as vezes trabalhando para dar ao técnico e à comissão técnica um suporte, sustentações importantes para o relacionamento com o atleta. Isso eu tenho certeza que é importante. Do psicólogo fazendo essa função, estar dentro do próprio ambiente do jogo, eu não sei.
No Corinthians, ao mesmo tempo em que existe esse componente da gratidão, de alguma forma também existe um receio de manchar uma imagem que foi deixada?
– No aeroporto, nós estávamos voltando, e um cara ficou meio tremendo. A Rose falou: "ele vai querer falar contigo". Eu dei a mão, ele estava com a mão suada, e disse assim: "eu não sei se eu torço para você voltar ou para você não voltar. Para mim, olhar para você e ter tanta alegria com tudo aquilo que nós construímos". Eles falam que eu dei, mas eu digo: "não dei, nós construímos juntos". Foi uma relação de reciprocidade. Ele repetiu: "eu não sei se eu torço para você vir ou para você não vir". Então tem esse outro lado do torcedor também, de ter um carinho bastante grande. A recíproca é verdadeira. Eu não estou fazendo isso para cavocar, como se diz, emprego nenhum. Até porque está tudo bem servido, o clube já se direcionou e escolheu também o seu técnico de forma recente.
Mas do mesmo jeito que o torcedor pensa nisso, "não sei se quero ou não quero", você também pensa nisso?
– Não mais do que a gratidão pelo clube, por tudo que eu acredito. Eu passei pelo clube recuperando uma equipe que, na minha primeira passagem, estava na zona de rebaixamento. Nós quase classificamos para a Libertadores, e muitas pessoas reconhecem isso. No Brasileiro de 2011, a equipe chegou ao limite máximo da sua potencialidade. Depois teve toda a reconstrução até o título mundial. Em 2015, quando voltei, tinha propostas, eu não gosto de falar isso, mas já que falei, com quase o dobro do salário. E eu disse: "não vou para outro clube". Por quê? Ao Roberto (de Andrade, ex-presidente), à direção, eu dei a palavra ao Corinthians e que iria voltar. E nós fomos campeões em 2015. Tenho toda uma consideração. Em 2016, a saída também foi com carinho. A gente construiu ao longo do tempo e ninguém vai tirar esse passado. Ninguém. Essa história ninguém (tira). Se nessa próxima etapa não der certo, faz parte da vida, é do jogo. Não é tão significativo. Talvez essa possibilidade de desenvolver um trabalho a médio prazo, não precisa nem ser longo, talvez seja o que mais pesa.
E agora, o que você quer? Tem ainda uma ambição de trabalhar fora do país, em outra seleção, quer trabalhar num clube pelo qual nunca passou?
– Abrem as perspectivas todas, sim. Porque não sei se foi eu estar legal do meu joelho, não sei se foi o gostinho da sensação de ser campeão de novo com o Cruzeiro, na relação pessoal com os atletas e de ver o crescimento de jovens...
– Vou dar o exemplo do Kenji. É um atacante pelo lado esquerdo, de um contra um, e uma capacidade de finalização enorme. Nós fizemos o primeiro jogo em casa só com garotos e perdemos de 1 a 0. Ele não foi legal. Eu digo: "cara, tu não formas atleta assim". Nós íamos jogar fora e ganhar o campeonato é duro, as equipes estão preparadas fisicamente antes, no embate. Eu disse: vamos manter (o Kenji). A gente foi conversar com ele, ter um approach, eu disse: "cara, segue, tu tens uma capacidade técnica, acelera e desacelera, um contra um, tu sai dos dois lados, só procura perceber que os caras estão marcando muito por dentro, porque a tua finalização de concha, exatamente de pé trocado, é muito qualificada. E o cara está te dando o fundo. Daqui a pouco, pedala e puxa para o fundo também". E nisso eu já estou passando que ele vai jogar, passando a confiança. E no final da situação eu coloquei para ele: "vai lá, faz um gol e vem me abraçar". Peguei e saí, no sentido de descontração. Nós vamos jogar o segundo jogo, olha o que acontece: quem faz o gol? Kenji. De que forma? Trouxe para dentro, ele foi meio de bico, meio de lado. Ele comemorou e eu disse: esse moleque joga muito mesmo. Quando eu vi quem estava do meu lado, na beira do campo, para me dar um abraço, o garoto. Eu não tinha tido a dimensão do quanto aquilo era importante para ele, de confiança. Cara, a camisa do Cruzeiro é pesada. E ele, primeiro gol no profissional, primeira situação importante. Sabe? Eu falei aquilo brincando para gerar confiança, e ele estava ali para me dar um abraço.
– Então, o quanto tu pode interferir numa evolução de um atleta. Isso me cativa, me deixa muito feliz. Nessa linha do tempo que é uma trajetória do técnico, talvez esses quatro, cinco anos. Depois, a menos que surja alguma coisa excepcional... Nesses quatro, cinco anos eu quero ainda ter esse prazer, essa satisfação, mas ela é extremamente significativa de ser um diferencial, como eu coloquei do Kenji ou de outros atletas.
Esse trabalho te reacendeu uma chama?
– Reacendeu meu tesão, sim. O prazer, a satisfação, o dia a dia. Eu fiz uma reunião um dia quando nós estávamos em um momento difícil. Vem cá: vocês acham que eu cheguei aqui de graça? Eu tenho muitas cicatrizes. Sabe como a gente saiu desses momentos difíceis? É fazendo o nosso melhor a cada dia. Vocês querem que eu conte alguma história de algum momento? Aí eles pediram: "pô, conta uma história". Eu passei essa adversidade assim, assim. Uma equipe vencedora é uma equipe que transpõe essas adversidades. E todos nós temos importância nisso. Então, daqui a pouco nós estávamos dentro do campo depois comemorando, essa alegria dividida com o funcionário que está do lado me dá bastante prazer. Ela me dá mais, talvez muito mais, do que uma consideração... Que ela é precisa, em termos jornalísticos, claro, ela é importante, mas esse approach, esse lado humano, ele me deixa muito feliz.
O que teve de diferente no Cruzeiro, que talvez você não tenha encontrado no Cruzeiro, que reacendeu essa chama?
– Não, tinha, mas talvez eu tenha... No Flamengo eu fiquei muito chateado porque não tive a possibilidade de dar tchau para funcionário e ter uma relação humana com os atletas. Eu fui me despedir dos atletas quando nós jogamos contra um ano e meio depois. Então, isso é uma relação humana. Se profissionalmente não quero ter...
Mas por que não teve essa possibilidade?
– Não sei. Não foi permitido. Foi solicitado, mas no solicitar já está implícito, né? Não quero que tu vá. Então isso é uma falta de respeito humano, essa situação. Num clube extraordinário, com uma grandeza extraordinária. Esse lado das pessoas eu não sei quem é o responsável de colocar... Mas também de um ambiente que ele te trouxe, com as características dele. E no Cruzeiro, o lado interno, das pessoas, dos funcionários, ele é muito agradável. Ele é muito bom de trabalho. Tu participas, tu divides as alegrias. E quando eu vi aquilo, as pessoas todas comemorando, pai de um moleque, pai de outro, familiares, toda a família do dono, do presidente junto na comemoração, e o quanto eles estavam felizes. Eu entendi, qquele primeiro objetivo que a gente queria foi conquistado. Só não deu tempo de recuperar, mas aí é outra história.
A gente está vendo hoje alguns clubes na elite do jogo, e acho que o Bayern e PSG ficaram muito marcados por isso, pela maneira de defender com perseguição pelo campo todo, assumindo riscos, sem sobra atrás, com o jogo virando quase dez duelos individuais pelo campo. Como treinador e observador, esse tipo de jogo te agrada?
– Como espectador, me fascina. E como técnico, me fascinaria se eu vencesse. Porém, ele foge do equilíbrio um pouquinho. Com a bola, tu tens que ser agressivo e fazer os gols. Sem bola, tu tens que fazer um trabalho que possa inibir o adversário de alguma forma. Isso as duas equipes não conseguiram controlar, uma não conseguiu controlar a outra. Com a bola as duas eram dominantes. É impressionante. E as duas não controlavam, tanto é que o jogo estava 5 a 2 e vira 5 a 4. Agora também há que se considerar que esse é um jogo fora dos padrões normais, o resultado fora dos padrões normais.
– Em termos estratégicos, sim, cada vez mais as marcações individuais. Talvez um dos que tem frequentemente usado isso seja o Abel no Palmeiras. Marcação individual, por vezes, até como perseguição. Tem formas de vencer. Daqui a pouco você fica mais posicional. O Barcelona é mais posicional. Dá para ganhar com os dois. Dá pra ter externos de velocidade. Dá para um ataque posicional ou um ataque funcional. Todos querem funcionar, mas é um ataque mais livre. O PSG tem um ataque mais livre. O Dembélé flutua. E não tem referências. Diferentemente do Bayern, que tem o Harry Kane. Então você setoriza e consegue marcar mais para não sair do lugar. E quando pega equipes que são móveis demais e elas fazem perseguições, espaços geram. No que o espaço gera, ele te tira o quê? Coberturas. Posicional, você tem coberturas. E aí fica um jogo (aberto). Porém, esse equilíbrio, eu tenho certeza que o Kompany e Luis Enrique vão procurar também. Talvez o jogo mostre que não dá para dar tanto assim ao adversário.
Você acha que quando um treinador sabe que o adversário está disposto a correr risco, ele se estimula a corrê-lo também nesse nível?
– Se você tiver jogadores com qualidade físicas e técnicas para tal, sim. E os dois têm (jogadores com condições). Ah, eu tenho Olise, um contra um. Tem o Luis Díaz lá. O Luis faz um domínio num lançamento impressionante. Pé de pelica, pé de pano. Quando ele domina, ele não está contra qualquer um, ele está enfrentando o Marquinhos. O Marquinhos encurta a marcação de uma maneira extraordinária. Ele tem uma capacidade de bloqueio, de percepção e de encurtar espaço incrível. E o Luis não é tão refinado assim. Mas faz o domínio, balança, traz para o lado. Então aí vai procurar jogadores para um contra um. Se eu tenho aqui, bate lá. O Real Madrid é um pouquinho caótico assim. Ele marca com oito e deixa o Vini e o Mbappé (mais soltos). Tipo assim: erra que você vai ver o que vai acontecer na sequência. Estratégias, formas, não tem a certa, se ganha de diversas. Mas linha de cinco, linha de quatro, não gosto muito do Atlético de Madrid. Agora ele está sendo um pouquinho mais, mas não me atrai.
Você disse que não tem certo e errado, mas o que te dá mais prazer hoje de sentar em frente à televisão e assistir? No Brasil, fora, futebol de seleções...
– De seleções eu vou ficar torcendo para o Brasil, esse é meu papel, de alguma forma contribuir, ou eticamente em termos de ideias, enfim, para o futebol. A seleção da França fica marcante porque hoje o atleta também é um atleta físico. Para fazer um contra um tem que ser um atleta físico. O que é? Alternância de ritmo, aceleração, recuperação. O Upamecano conseguiu buscar o Dembélé, saindo com cinco ou seis metros atrás e fazendo bloqueios impressionantes. O Van Dijk tem essa capacidade também, ele sempre dá a diagonal, nunca dá a base de frente para ser driblado. Por duas coisas: porque você vai ter mais velocidade para fazer um bloqueio e porque abre uma visão para o goleiro ver a finalização e o gesto técnico que o atleta faz para que ele possa antecipar o movimento de defesa. E eles nunca defendem de frente, sempre numa diagonal, sempre de perfil. Então são atletas físicos que têm essa capacidade enorme, cada vez mais. O Militão era assim, um cara impressionante nesse quesito.
Quando o jogo vai partindo para esses embates individuais, a sensação é que se valorizou de novo o driblador, né?
– Sim.
É uma maneira de desestruturar uma defesa?
– É. E aí eu te digo: se você tiver dos dois marcações individuais e perseguições, mais ainda. Flamengo e Bayern foi assim no seu início. Eu não sei se na média e na baixa vai ser essa perseguição total.
Tem time que pressiona no individual e baixa e é um pouco mais zonal.
– Perfeito.
Você ainda é adepto de uma marcação mais zonal?
– Se eu tenho uma equipe tecnicamente que é igual, se eu tenho o Vini, Raphinha, se eu tenho digo: vamos para o jogo. Tem aqui, tem lá. Mas se as características são outras... Se eu vou enfrentar uma equipe que eu não tenho essa transição em velocidade e ser agressivo e ter um contra um, vou ser posicional. Porque aí eu vou dar muito espaço para eles. Se eu não tenho jogadores físicos, com capacidade de alternância de ritmo, com capacidade de recuperação, de correr para trás... Dei o exemplo do Upamecano, mas pegue outros. Se eu não tiver, eu vou fazer uma marcação média-baixa. Por quê? Porque eu vou ter coberturas curtas. No um contra um tu vai me ganhar, mas a minha cobertura está pertinho. Às vezes eu uso a linha de cinco. Abre mais para não tensionar, para diminuir mais ainda o um contra um e ter coberturas curtas. Aí a tal da estratégia e de ver o que se tem na mão, não só eu, mas qualquer técnico, e de formar uma equipe com essas características.
Você ainda tem como objetivo trabalhar no exterior ou isso não é mais prioridade?
– Não, larguei, larguei. Porque criamos uma expectativa muito grande também, não deu. Na realidade não é essa, não surgiu e deu. Eu falei com dois clubes da Premier League em momentos distintos. Um vocês colocaram um nome (West Ham), o outro também. Eu fiz a entrevista, conversei com eles, eu e o Matheus conversamos. Mas acabou não se definindo. Agora deu, não vou criar essa expectativa maior.
E em outra seleção?
– Eu coloquei antes para vocês, pode sim. Isso eu não descarto, alguma possibilidade, sim.
Fonte/Créditos: Globo Esporte
Créditos (Imagem de capa): Globo Esporte

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